Empresas são capacitadas no desenvolvimento da pegada hídrica de seus produtos

Iniciativa Ciclo de Vida Aplicado (CiViA) oferece capacitação inédita para empresas na gestão de recursos hídricos e na elaboração de estudos de pegada hídrica de produtos (bens e serviços) com base na ferramenta da avaliação de ciclo de vida (ACV); tema integra as agendas de trabalho das Iniciativas Empresariais do GVces no ciclo 2016 20/05/2016
COMPARTILHE

(Foto: Roberta Boccalini/GVces)
Local FGV-SP, São Paulo/SP
Data: 03 e 04 de maio de 2016 Projeto: Iniciativa Ciclo de Vida Aplicado (CiViA) Participantes: Representantes das empresas membros da CiViA Apresentação: Beatriz Kiss e Ricardo Dinato (GVces)
Texto: Bruno Toledo (GVces)

A CiViA realizou entre os dias 03 e 04 de maio na FGV-SP uma capacitação para elaboração de pegada hídrica de produtos (bens ou serviços), um indicador abrangente da apropriação de recursos hídricos que vem ganhando espaço em empresas de todo o mundo nos últimos anos. O objetivo da CiViA com esta capacitação foi oferecer ferramentas e conhecimento para o desenvolvimento de projetos piloto de pegada hídrica de produtos selecionados pelas suas empresas membros ao longo de 2016, além de oferecer insumos para a discussão sobre gestão de recursos hídricos no âmbito das Iniciativas Empresariais do GVces.

Pegada hídrica

Em linhas gerais, a pegada hídrica é um indicador que estima o volume consumido de água para a geração de determinado bem ou produto e os impactos potenciais desse consumo na disponibilidade atual e futura de recursos hídricos.

O conceito de pegada hídrica começou a ser desenvolvido no começo dos anos 2010, quando a iniciativa Water Footprint Network (WFN) estabeleceu o primeiro padrão global para estimar o consumo de água de um bem ou serviço. Em 2014, a International Organization for Standardization (ISO), publicou sua norma 14046, que inclui princípios, requerimentos e orientações para o desenvolvimento de estudos de pegada hídrica, alinhado aos conceitos da norma ISO 14040 e 14042, que tratam da Avaliação de Ciclo de Vida (ACV). Os dois métodos para contabilização da pegada hídrica foram abordados pela equipe da CiViA durante o treinamento realizado em maio deste ano.

O método da WFN introduziu os conceitos da pegada azul (água doce superficial ou subterrânea), verde (água de chuva, que não escoa nem recarrega os aquíferos) e cinza (indicador de poluição da água que pode ser associado com a elaboração do produto ao longo de toda a sua cadeia produtiva), já conhecido em diversos países do mundo. Este método se aplica tanto a produtos quanto empresas, países, regiões, consumidores, etc.

Já a ISO 14046 aborda a pegada hídrica como um subconjunto da ACV, que identifica potenciais impactos ambientais relacionados à água, tanto em quantidade quanto em qualidade, ao longo de todo o ciclo de vida do produto, ou seja abordando todas as etapas, do berço ao túmulo.

A norma ISO 14046 ainda é muito recente, não tendo sido aplicada ainda por empresas brasileiras. Esta norma está mais alinhada aos objetivos da CiViA, que focam na incorporação do pensamento de ciclo de vida na gestão empresarial, a partir da visão do produto e, consequentemente, de toda a cadeia produtiva. A quantificação da pegada hídrica é mais um passo que as empresas precisam tomar para mensurar, entender e tomar decisões que podem melhorar a gestão da água, reduzindo seus potenciais impactos ambientais. Após estudar a pegada de carbono e a pegada hídrica, o próximo passo será rumo à “ACV completa, contabilizando todas as categorias de impacto ambiental para uma gestão mais completa do portfolio de produtos”, afirma Beatriz Kiss, coordenadora da CiViA. “É um grande desafio para as empresas lidar com tantas dimensões de impacto ao mesmo tempo, por isso optamos por uma abordagem de construção de conhecimento que agrega novas categorias aos poucos, possibilitando melhor assimilação e foco em questões específicas, aplicadas a cada empresa e setor de atuação”.

Capacitação

Para as empresas membros da CiViA, o treinamento foi uma oportunidade importante para conhecer mais sobre os métodos para o cálculo da pegada hídrica e para saber mais sobre os desafios e as possibilidades que a obtenção desse tipo de informação oferece para as organizações.

Um exemplo é a Vale, empresa que investe desde 2012 no estudo sobre a pegada de carbono de suas operações e produtos. Para João Vieira Dias, analista de recursos hídricos da Vale, o treinamento foi importante para compreender melhor as metodologias e se posicionar mais adequadamente no estudo do tema "Mesmo com a publicação da ISO, em 2014, o seu entendimento e aplicação prática não é simples e consensual. Desta forma, esta capacitação nos deu um melhor direcionamento, uma orientação positiva para que possamos melhorar o uso de água em nossa empresa, ou seja, nos tornarmos cada vez mais eficientes".

Mesmo organizações nas quais a água não é um insumo central começam a olhar para o tema com uma visão mais estratégica para o negócio. "Viemos conhecer a ferramenta para ver se podemos inclui-la em nossa gestão”, explica Tatila Martins, analista ambiental da AMAGGI. No ciclo 2015, a Amaggi desenvolveu no âmbito da CiViA um estudo de pegada de carbono para a soja, óleo degomado e farelo, que pode ser complementado neste ano com um estudo de pegada hídrica: "Vemos complementaridade entre as duas pegadas. Nossa visão é sermos referência em desenvolvimento sustentável, e quanto mais informações tivermos sobre os impactos do nosso produto e para o negócio melhor conseguiremos aplicar as ferramentas agregando na estratégia da empresa e perenidade do negócio. A união das duas ferramentas pode melhorar a nossa atuação".  

Outro exemplo de empresa que não tem água como insumo central, mas que já está olhando para seus impactos nos recursos hídricos, é a Santos Brasil, empresa de logística portuária e distribuição porto-porta de mercadorias. "A água não é um insumo fundamental, mas ela faz parte de vários subprocessos menores em nosso negócio, por isso precisamos de uma ferramenta para administrar o nosso consumo", explica Heitor Carbone Jr., gerente de engenharia e projetos da Santos Brasil.

Próximos passos

A capacitação oferecida pela CiViA faz parte do esforço integrado das Iniciativas Empresariais do GVces em oferecer uma visão integrada sobre os desafios e as possibilidades de uma gestão sustentável dos recursos hídricos no Brasil. As iniciativas Ciclo de Vida Aplicado (CiViA), Plataforma Empresas pelo Clima (EPC), projeto Inovação e Sustentabilidade na Cadeia de Valor (ISCV), Desenvolvimento Local e Grandes Empreendimentos (ID Local), e Tendências em Serviços Ecossistêmicos (TeSE) irão trabalhar no tema da gestão de recursos hídricos em 2016, articulando e integrando a expertise diferenciada de cada iniciativa e de suas empresas membros.

Nesse contexto, além da capacitação, o GVces também está realizando uma chamada de casos de experiências inovadoras relacionadas à gestão de recursos hídricos no setor privado, que está aberta até o dia 03 de junho. As organizações selecionadas serão convidadas para participar de um encontro presencial junto com o grupo de empresas membros das Iniciativas do GVces e terão seus casos registrados em uma publicação que abordará os resultados do ciclo 2016.

Já dentro da CiViA, um dos produtos previstos para o ciclo 2016 é o desenvolvimento de até cinco projetos piloto em pegada hídrica, que serão acompanhados e apoiados pela equipe do GVces no decorrer deste ano. Clique aqui para saber mais sobre o ciclo 2016 da CiViA.

Fotos: Roberta Boccalini/GVces