ACV na cadeia de valor: oficina engaja fornecedores de empresas no tema de ciclo de vida

Oficina teve como objetivo aproximar da temática da ACV os diversos atores da cadeia das empresas membros, a fim de facilitar o desenvolvimento dos projetos de pegada de carbono e os pilotos de pegada hídrica 09/09/2016
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Local FGV-SP, São Paulo/SP
Data: 1º de setembro de 2016 Projeto: Iniciativa Ciclo de Vida Aplicado (CiViA) Participantes: Representantes das empresas membros da CiViA
Debatedores: Alcir Vilela (SENAC, ISE BM&FBOVESPA), Guilherme Lefèvre (GVces), e Yuki Kabe (Braskem) Apresentação: Beatriz Kiss e Ricardo Dinato (GVces)
Texto: Bruno Toledo (GVces)
Fotos: Isabella Fumeiro (GVces)

Um bom estudo de avaliação de ciclo de vida (ACV) depende de informações confiáveis e verificáveis sobre a vida útil de um dado produto ou serviço desde a sua concepção física até o seu descarte final. Para uma empresa, nem sempre é fácil obter este tipo de informação, ainda mais com o grau de confiabilidade que um estudo técnico exige, pois ela possui controle direto sobre apenas uma parcela dos dados – para conseguir o restante, a empresa depende da sua cadeia de valor. Ou seja, um bom estudo de ACV depende do envolvimento dos fornecedores e dos demais atores ao longo da cadeia de valor.

Consciente de que este é um desafio importante para o desenvolvimento de estudos de ACV no Brasil, a iniciativa empresarial do GVces Ciclo de Vida Aplicado (CiViA) promoveu no dia 1º de setembro uma oficina com o objetivo de aproximar da temática de ACV os diversos atores da cadeia das empresas, especificamente os fornecedores, prestadores de serviços e clientes, a fim de facilitar o desenvolvimento dos projetos de pegada de carbono e os pilotos de pegada hídrica, assim como futuros estudos de ACV.

Além de introduzir o pensamento de ciclo de vida e a ferramenta da ACV para esses atores, a CiViA também discutiu os potenciais benefícios do envolvimento deles na temática de ACV, com vistas a fomentar formas de colaboração entre as empresas membro e esses atores estratégicos de suas cadeias.

ACV, sustentabilidade e cadeia de valor

O pensamento de ciclo de vida é desafiador para as empresas porque ele supera os limites operacionais de uma organização. Como o foco não está mais na empresa e sim no seu produto, ele amplia o campo de análise para além dessas fronteiras, forçando as empresas preocupadas com os impactos reais de seus produtos (bens de consumo e serviços) a considerar não apenas as suas operações, mas também a dos demais atores na cadeia de valor.

“Quando usamos o pensamento de ciclo de vida, a gente parte de uma visão transversal maior do que a minha empresa. Pouco importa aonde sua empresa está localizada no ciclo de vida de um produto: todos fazem parte dele”, explica Beatriz Kiss, gestora da CiViA.

A sustentabilidade exige esse foco ampliado. Falar de impacto ambiental apenas dentro do controle operacional da empresa é insuficiente: se ela quer mensurar realisticamente os impactos ambientais de seus produtos, a organização precisa desenvolver um pensamento de ciclo de vida associado aos seus modelos de gestão. Sem isso, não há como essas empresas falarem de sustentabilidade como um valor agregado ao seu negócio.

 “Se quisermos comparar empresas pelo aspecto da sustentabilidade, precisamos dos dados gerados pela ACV”, aponta Alcir Vilela, professor do SENAC e coordenador da Dimensão Ambiental do Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) da BM&FBOVESPA.

Yuki Kabe, do setor de desenvolvimento sustentável da Braskem, concorda. "Rótulos tradicionais de sustentabilidade são insuficientes atualmente. Precisamos ter um entendimento claro do que é sustentabilidade. Para a Braskem, a melhor forma de chegarmos a isso é através da ferramenta de ACV”.

Mas, para que a empresa possa utilizar a ACV, é crucial que ela tenha consciência da utilidade prática desse tipo de informação para o seu negócio. A empresa precisa ter em mente que a ACV não é uma ferramenta pontual, a ser utilizada oportunisticamente: seu potencial está exatamente na sua aplicação no longo prazo. Segundo Vilela, as boas experiências de ACV demoraram algum tempo para gerar resultados consistentes. “O esforço de capacitação dentro das empresas para lidar com ACV é grande, mas o seu custo é relativo quando consideramos o longo prazo”, diz.

Assim, a ferramenta de ACV precisa estar incorporada à gestão da empresa para que ela possa ser aproveitada plenamente. “A ACV nos permite ter informações para melhorar nossos processos. Ou seja, nos permite conhecer para poder gerenciar, saber mais sobre os nossos processos para poder desenhar modelos eficientes de gestão”, argumenta Vilela.

ACV na definição de incentivos e regulações

Gradualmente, o mercado e a regulação governamental começam a olhar para a ACV como uma ferramenta para influenciar e definir a demanda, principalmente no que diz respeito aos impactos dos produtos na mudança do clima. Um exemplo apresentado durante a oficina foi um estudo desenvolvido pelo GVces para o Ministério da Fazenda que explora o potencial de instrumentos econômicos (como incentivos tributários) para o atendimento das metas de redução de emissões estabelecidas na legislação nacional atual e futura.

No estudo, os pesquisadores do GVces apontam para a possibilidade de o poder público estabelecer uma alíquota variável para os combustíveis considerando a intensidade carbônica não apenas no ato do uso, mas também ao longo do seu ciclo de vida – desde a sua extração, passando pelo processo de refino e indo até a eliminação na atmosfera.

“Ao calcular mais realisticamente as emissões de um dado combustível fóssil, a ACV pode ser um instrumento importante para determinar legislações”, explica Guilherme Lefèvre, um dos pesquisadores do GVces responsáveis pelo estudo. “Considerando os compromissos assumidos pelo Brasil no Acordo de Paris para as próximas décadas, é possível que o governo avance na taxação sobre importação e comercialização como uma forma de incentivar o uso de combustíveis com menor intensidade carbônica e menos emissões ao longo de seu ciclo de vida”.

Próximos passos

Com a realização desta oficina em setembro, as empresas membros da CiViA entraram na etapa de finalização da coleta de dados para seus respectivos estudos de pegada de carbono e pilotos de pegada hídrica, obtendo os dados com seus fornecedores e, quando estes não estiverem disponíveis, a partir de fontes secundárias.

A expectativa é que os resultados finais dos estudos e dos pilotos sejam apresentados no começo de dezembro pelas empresas membro.

Clique aqui para saber mais sobre o ciclo 2016 da CiViA.